24 de mai de 2012

EU UM PALHAÇO



O palhaço hoje acordou triste. A máscara por traz do nariz vermelho foi ao chão, a lágrima desfez a maquiagem, a poesia ficou sem rima. Sobrou tanta falta...a falta do abraço, do sorriso, do xêro no olho, da força que nunca secara. Coração bateu forte demais, não resistiu. A vida gritou cuidados, tão renegados nos dias de prazer desesperado. O palhaço tentou fazer graça, tentou fazer melodia. Mas faltou açúcar no café, faltou mel no fim do dia. O gosto de fel amargou a poesia. Os versos se perderam na manhã que até o Sol brilhava despercebido. O frio, a ausência, a lembrança estavam agora ocupando todo espaço que sobrara no rosto ressequido, úmido de água salgada, que rolara pelo queixo até o chão. A boneca de pano não conseguiu dançar. Seus ouvidos não alcançavam a melodia que se fazia ao longe...lá dentro...bem longe...
E lá de longe, lá de dentro, fez-se acordar a beleza adormecida. Não se negaram as dores, não se pintaram amores, não fez-se dormir o pranto. Não coloriu-se a realidade opaca, não riu-se da desgraça sem graça, não vestimos a tristeza com nenhum disfarce fajuto. Mas as lágrimas lavaram a alma e fizeram brilhar aquilo que o palhaço sabia de cor. Que essa Vida é força frágil, é o desequilíbrio bem equilibrado, a incerteza obsessiva, a surpresa anunciada, o desespero esperado, a efemeridade eterna, a contradição bem viva. E para não perder-se em caminhos de ilusão, é preciso estar sempre armada, sempre amada, com coração na mão. Para não esquecermos que a Vida pulsa, é preciso adormecer para acordar a cor da infância adormecida.Voltar-se a encher os olhos de paz inebriante, como a criança quando se depara pela primeira vez com o Mar.
À beira do Mar da Vida, encontrei a solidão sempre bem vinda, mergulhei na dor da ferida...e achei a Esperança a me esperar.

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